por Rui Almeida

 

2 DE AGOSTO 2008

 

 

Nós, os kartistas temos a mania que vivemos constantemente com a corda na garganta ou na eminência da nossa cara-metade nos colocar as malas à porta.

Todos nos queixamos da dificuldade em estar presente nas corridas e da ginástica que temos de fazer para justificar a nossa presença em “só mais esta” …todos os fins-de-semana.

Eu tenho mais de 11 anos consecutivos de corridas e… acabo de completar 16 anos de casamento.

E para comemorar mais um aniversário, a minha cara-metade resolveu presentear-me com uma verdadeira surpresa.

Um surpresa que acabou por comprovar que as minhas presenças estavam todas perfeitamente justificadas! Afinal eu não sou tão abusador assim.

E digo uma verdadeira surpresa porque eu só tive ideia do que era quando ela disse ao taxista que o destino era o aeroporto!

Aí ele perguntou: - “Voos nacionais ou internacionais?”

A minha moça olhou para mim, fez uma pausa, sorriu, ainda hesitou e disse: “Nacionais”.

- “Nacional?” pensei eu. Então venho de carro para Lisboa para apanhar um avião para o Porto?

Só percebi que íamos para as ilhas, quando chegamos à Portela: Tratava-se de um voo SATA.

As coisas pareciam todas combinadas, já que dez a quinze minutos depois de chegar ao hotel tinha um indivíduo a perguntar por mim para me entregar um carro!

E logo depois um telefonema de um amigo de longa data (e que segue dentro do carro destas fotos) para me entregar uma placa de livre-trânsito para o Rali Vinho da Madeira: “Entidade Oficial/VIP” que eu ostentava orgulhosamente quando me deslocava e escondia debaixo do acento quanto estacionava o carro…

Meus amigos, isto não é para todos, hem! É preciso merecer, não?

Conseguem imaginar?

 

 

“Não marques nada na próxima semana que tenho uma surpresa para ti” e de repente estou no Funchal, no hotel onde estão todas as equipas oficiais, mais a fina-flor dos ralis nacionais e… EU!

Como calculam, eu conheço muita gente, não só dos karts, mas também dos automóveis e por isso foi com naturalidade que eu respondi com um seco “Bene” a um simpático “Como estás?” do Renato Travaglia que vinha acompanhado do Luca Rossetti.

Pura verdade! A história é simples. No dia anterior tinha estado à conversa com amigos e conhecidos dos ralis. No grupo estava um conhecido piloto da nossa praça e que tem um Punto S2000. Estava a falar com um engenheiro qualquer da FIAT que entretanto chamou o Travaglia para lhe perguntar qualquer coisa.

Nesse dia cruzamo-nos na ida para o pequeno-almoço e o Travaglia deve-me ter reconhecido lá do grupinho, olhou para mim, pensou “Este gajo deve ser MUITO importante. Com aquela barba ridícula e tudo, só pode!” …e cumprimentou-me!

Sempre fui um homem dos ralis. O meu primeiro rali foi o Vinho do Porto de … 1979 ganho por Hannu Mikkola depois de uma luta fantástica contra Bjorn Waldegaard, ambos num Escort. Se calhar alguns de vocês ainda não eram nascidos ou então andavam de fralda!

Nessa altura fui contagiado pelo “bichinho” e desde então vi tudo o que havia para ver a nível nacional, mas no continente.

Entretanto perdi o hábito de ver ralis quando o parque automóvel começou a ficar pobre e depois a gota que transbordou o copo, foi a saída do rali de Portugal do Mundial.

Hoje em dia chamar "Rali de Portugal" aquele rali que se faz no Algarve é um tristeza. Não há carisma.

O Mikkola ou o Waldegaard devem-se rir (ou chorar) se alguém lhes disser que já não há Marão, Fafe ou… Arganil!

Podia começar aqui com aquele mais que célebre começo de frase – “Eu sou do tempo…”, mas não vou, porque onde eu estive foi no Rali Vinho da Madeira.

 

 

O Rali Vinho da Madeira é só o melhor rali de Portugal. Esta foi a conclusão que tirei quando me vim embora.

Os meios à disposição da organização estão ao nível de qualquer organização WRC (vê-se que há dinheiro ali) e por isso compreendo agora como fazia todo o sentido a candidatura deste rali ao Mundial.

A “minha” placa dava-me acesso a quase tudo e tive o must (surpresa) de chegar ao parque de assistência e tinha parque privativo e à sombra!

Nas classificativas, mais do que uma vez os polícias disseram-me: “Não pode deixar o carro na estrada, nem pisar as plantas”.

A Guarda florestal está fortemente mobilizada no terreno do Rali. Fazem carreiros de passagem, escadas e pontes em madeira para orientar os espectadores. Desta forma minimizam os estragos na floresta.

Tudo muito ordeiro e sem confusões, numa palavra - fácil, muito fácil ver este rali.

Não andasse sempre atrasado e diria que a placa foi mais útil para ter o carro à sombra na assistência do que para ver o rali.

Dizem que o IRC é o futuro dos ralis Mundiais.

Estes carros não têm o nível de performance dos WRC (nem nada que se pareça) mas não deixam de ser espectaculares.

O Giandomenico Basso (que tb estava no meu hotel) é um verdadeiro artista, sem dúvida um Campeão. Chega a ser assustador vê-lo passar nalgumas zonas e o Bruno Magalhães não lhe fica nada atrás, também é um fora-de-série.

Era o meu candidato e ganhava se não fossem os… ses.

A Madeira tem também um parque automóvel que embora já não seja o de outros anos, faz inveja a qualquer rali do continente.  

O Alexandre Camacho anda muito bem. Tinha um bom carro, o conhecimento do terreno, mas excedeu-se para chegar ao terceiro lugar.

E finalmente as classificativas.

Meus amigos, as classificativas são para homens com "O" grande como diz o outro e tenho que dizer assim para não ferir susceptibilidades.

Nem quero imaginar como seriam feitas por WRC’s, por um Loeb, um Hirvonen ou pelo maluco do Gigi Galli.

A televisão não dá a menor ideia do desnível de algumas delas. Fiz duas classificativas no dia anterior ao início do rali e as descidas eram de tal ordem que sempre tomei como certo que se faziam a subir. Só de olhar para os precipícios, fica-se arrepiado.

Puro engano. Eram mesmo feitas a descer!

A ilha é muito acidentada e há zonas de uma beleza natural absolutamente fabulosa.

Numa palavra, adorei!

Para o ano com as companhias low cost a actuar, é mais fácil lá voltar e… fiquei com vontade de fazer surpresas.

E agora já sabem, façam como eu! Não abusem, façam poucas provas (por fim-de-semana) e pode ser (pode ser) que alguém que vos adore, vos faça surpresas destas!

ASES, boas férias.

 

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